terça-feira, 21 de março de 2017

dias assim

Leio "irreparably broken" num texto e não consigo tirar dali os meus olhos. Com o estômago embrulhado.

quinta-feira, 16 de março de 2017

(pois) 10 razões para limitar a exposição dos menores de 12 anos a telemóveis, tablets e afins

O pediatra Hugo Rodrigues comenta à VISÃO as 10 razões apresentadas por uma terapeuta ocupacional pediátrica americana para proibir a exposição às tecnologias a crianças menores de 12 anos
A Academia Americana de Pediatria e a Sociedade Canadiana de Pediatria recomendam que crianças dos 0 aos 2 anos não sejam expostas a nenhuma tecnologia e que o seu uso seja limitado a uma hora por dia a crianças dos 3 aos 5 anos e a duas horas por dia a crianças dos 6 aos 18 anos.
Mas o que se passa na realidade é que a quantidade de tempo que as crianças passam à frente das tecnologias é muito maior do que é aconselhável e, com isso, estão a prejudicar seriamente a sua saúde. Quem o diz é Cris Rowan, uma terapeuta ocupacional pediátrica. Num artigo que escreve para o The Huffington Post, alerta todos os pais, professores e governos para a importância de regular o tempo dedicado às tecnologias.
Pedimos ao pediatra Hugo Rodrigues, que escreve para a Bolsa de Especialistas da VISÃO, um comentário às 10 razões apresentadas por Cris Rowan para banir o uso de tecnologias a menores de 12 anos.

  1. Crescimento cerebral impróprio
  1. Atraso no desenvolvimento
  1. Obesidade
  1. Privação de sono
  1. Doenças mentais
  1. Agressividade
  1. Demência digital
  1. Vício em tecnologia
  1. Emissão de radiação
  1. Insustentável

A exposição excessiva a tecnologias tem sido associada a um défice do funcionamento executivo cerebral e de atenção, a atrasos cognitivos, a uma aprendizagem debilitada, à diminuição da capacidade de autoregulação e ao aumento da impulsividade.
O desenvolvimento cerebral só termina depois dos 20 anos na maior parte das pessoas, pelo que todos os estímulos a que as crianças e adolescentes estão expostos podem condicionar esse desenvolvimento.
Relativamente à capacidade de atenção, os estímulos dos chamados “ecrãs” são múltiplos e curtos, o que não estimula corretamente o funcionamento executivo, a atenção e aprendizagem. Para além disso, a capacidade de visualização 3D e orientação viso-espacial (coordenação entre visão e orientação espacial) encontra-se comprometida nos ecrãs, pois a imagem tem apenas duas dimensões e não três.
A impulsividade e a auto-regulação podem ficar comprometidas na medida em que mesmo a socialização que se consegue através das tecnologias está sempre intermediada por um aparelho, o que diminui a capacidade de controlo pela sensação de proteção que provoca. A este facto acrescem ainda os conteúdos (vídeos e jogos, por exemplo) que muitas vezes aumentam a agressividade e a impulsividade.
Por fim, relativamente ao défice cognitivo parece-me uma afirmação um pouco exagerada, porque essa relação é extremamente controversa e difícil de provar.
Porque implicam pouco movimento, as tecnologias acabam por atrasar o desenvolvimento da criança, e, por consequência, ter um impacto negativo no seu desempenho académico.
O desenvolvimento motor encontra-se condicionado pela ausência de estimulação nesse sentido. Particularmente a motricidade fina, que é a área mais afetada. Não tem nada a ver montar um puzzle num tablet ou com peças reais! A orientação tridimensional é algo que só se consegue com peças verdadeiras… Outro exemplo são as formas 3D, que num ecrã não existem (a esfera e um círculo, o cubo um quadrado, …).
Também em termos de linguagem, o desenvolvimento se encontra afetado. A linguagem verbal e escassa na maior parte dos programas e aplicações é muitas vezes “maltratada”, com abreviaturas e ortografia sem regra. A linguagem não verbal não se aprende sem socialização, porque requer contacto face a face e nenhum ecrã o consegue.
O uso da televisão e de jogos de vídeo está relacionado com um aumento da obesidade. As crianças que têm aparelhos tecnológicos nos quartos têm 30% maior incidência de obesidade.
Completamente de acordo. A obesidade é a epidemia do século XXI e o sedentarismo um dos seus principais fatores de risco. Para além disso, o contacto permanente com os aparelhos tecnológicos estimula também a prática de “snacking”, que é o consumo pouco regrado de alimentos pouco nutritivos e muito densos do ponto de vista calórico (por exemplo, bolachas, chocolates, batatas fritas, etc).
75% das crianças com 9/10 anos têm privação de sono, o que acaba por prejudicar negativamente o desempenho académico;
Também completamente de acordo. O sono é um aspeto fundamental do dia-a-dia das crianças e adolescentes e um dos pilares do seu desenvolvimento. Os ecrãs tem um efeito nocivo na quantidade e qualidade do sono, que tem obrigatoriamente que ser “combatido”.
O uso exagerado de tecnologias é considerado um dos fatores responsáveis pelo crescimento das taxas de depressão infantil, ansiedade, defeitos de vinculação, défice de atenção, autismo, transtorno bipolar, psicose e comportamento problemático da criança.
Esta relação é controversa, mas é verdade que o isolamento social e a dependência da tecnologia que se cria podem ter interferência no humor, levando a situações de ansiedade e depressão, por exemplo. Também os conteúdos dos programas e jogos pode moldar o comportamento nesta fase tão vulnerável, levando a comportamentos problemáticos.
Quanto a relação com autismo, psicoses e doenças bipolares, as tecnologias podem ajudar a que surjam episódios de descompensação, mas não atuar como causa dessas doenças.
As crianças estão expostas, através dos media e das tecnologias, a agressão explícita, o que pode influenciá-las a ter um comportamento agressivo.
Completamente de acordo. O controlo de conteúdos tem que ser uma prioridade para todos os pais. As crianças aprendem por imitação, pelo que tem que se selecionar muito bem tudo a que elas têm acesso.
Os conteúdos mediáticos de “alta velocidade” podem contribuir para um défice de atenção e para uma diminuição das capacidades de concentração e de memória.
Já expliquei um pouco no ponto 1. Apesar das crianças poderem ficar muito tempo ligadas às novas tecnologias, isso não significa que tenham uma grande capacidade de concentração. A questão é que os estímulos são muito curtos, o que faz com que, na verdade, elas não estejam muito tempo atentas, mas sim atentas durante pequenos períodos de tempo de cada vez.
Uma em cada 11 crianças, dos 8 aos 18 anos, é viciada em tecnologia.
Completamente de acordo. Este é um problema real, com o qual nós ainda não sabemos lidar adequadamente. Vai ser um enorme desafio nos próximos tempos porque se trata de uma verdadeira dependência em grande parte dos casos.
Em maio de 2011, a Organização Mundial da Saúde classificou os telemóveis e outros dispositivos sem fio com um risco de categoria 2B (possível carcinogénico), devido à emissão de radiação. As crianças são ainda mais vulneráveis a estes perigos.
Completamente de acordo. Hoje em dia vivemos completamente rodeados por radiações (Bluetooth, Wi-Fi) e muitas delas são ainda algo desconhecidas em termos de consequências para a saúde. O que é um facto é que existe a noção de que o número de casos de cancros em idade pediátrica estão a aumentar e tem obrigatoriamente que haver fatores ambientais que o justifiquem.
A forma como as crianças são educadas não é sustentável. Não há futuro para as crianças que usam a tecnologia em excesso.
Acho demasiado negativo dizer que não há futuro. Cabe-nos a nós, adultos, fazer as escolhas certas para podermos ajudar as nossas crianças a serem adultos saudáveis, felizes e responsáveis. Para isso, é preciso usar sempre o bom-senso e tentar retirar das tecnologias o que podem ter de bom sem sofrermos o efeito negativo do seu (mau) uso.

Depoimento recolhido por Sara Soares via Crianças a Torto e a Direito

quarta-feira, 15 de março de 2017

add to basket and checkout

Já havia colocado este livro várias vezes no meu "cesto de compras" da book depository, mas depois retirava-o. Ninguém quer ser confrontado com este assunto que desejamos inominável.
Não se preocupem, não comprei o livro por estar no limiar deste assunto, mas porque gosto de enfrentar os touros pelos cornos. Assim mesmo. 
Nenhum dos nossos filhos está identificado como tendo uma perturbação da vinculação. Quero apenas saber mais adiante.

Já troquei emails com este autor, este pai. Pessoa doce e gentil.

Sinto que é minha obrigação ler isto. É isso. No meu papel de mãe que tem medo do sofrimento dos filhos e no meu papel de activista na adopção. Este segundo papel há-de tomar uma forma mais concisa, para já recebo informação que tento digerir.


A rapariga por detrás da porta:

"A moving and riveting memoir about one family's love and tragedy...beautifully researched, and expressed" (Anne Lamott). Early one Tuesday morning John Brooks went to his teenage daughter's room. Casey was gone, but she had left a note: The car is parked at the Golden Gate Bridge. I'm sorry. Within hours a security video showed Casey stepping off the bridge. Brooks spent several years after Casey's suicide trying to understand what led his seventeen-year-old daughter to take her life. He examines Casey's journey from her abandonment at birth in Poland, to the orphanage where she lived for her first fourteen months, to her adoption and life with John and his wife, Erika, in Northern California. He reads. He talks to Casey's friends, teachers, doctors, therapists, and other parents. He consults adoption experts, researchers, clinicians, attachment therapists, and social workers. In The Girl Behind the Door, Brooks's "desperate search for answers and guilt for not doing the right thing without knowing what it was reveals the utter helplessness of suicide survivors" (Kirkus Reviews). Ultimately, Brooks comes to realize that Casey probably suffered an attachment disorder from her infancy--an affliction common among children who've been orphaned, neglected, and abused. She might have been helped if someone had recognized this. The Girl Behind the Door is an important book for parents, mental health professionals, and teens: "Rarely have the subjects of suicide, adoption, adolescence, and parenting been explored so openly and honestly" (John Bateson, Former Executive Director, Contra Costa County Crisis Center, and author of The Final Leap: Suicide on the Golden Gate Bridge) (aqui)

Aviso à navegação

Republiquei grande parte dos posts do passado (os que foram para dentro da gaveta em 2016, durante a nossa pausa)  ;)

(dias difíceis)

Por vezes, os dias não são fáceis. Aliás, por vezes, são mesmo difíceis. Há alturas em que olhamos a própria intuição com desconfiança, de tanto tropeçar nos dias. Há alturas em que a única coisa que resta é  procurar compreender melhor o que se diz, o que se estuda, o que se escreve sobre isto.
Queremos fazer melhor do que fazemos. Mesmo reconhecendo as nossas limitações e falhas, queremos fazer melhor. Queremos redimir-nos das falhas, queremos ensinar o perdão e, para isso, temos de começar por olhar as situações por outra perspectiva. 

No meio disto: o sofrimento duma família em que os membros se amam entre si.

Não esperamos uma cura da vida, mas desejávamo-la, temos de admitir isso. Procuramos levá-la para um lugar seguro e eu acho que o nosso amor não tem sido isso. Temos de (re)começar daí.
Vamos indo e vamos vendo. Queremos o melhor para que todos se sintam seguros e possam sentir alegria nos seus corações.

Transcrevo um excerto:

“Sometimes the road to loving your adopted daughter is long and twisted and scary. You know something is wrong – but is it her? Is it you? You drown in shame and confusion, hiding your feelings from the world. (…)My husband and I banded together to read everything we could on the syndrome. We made a dogged effort and a conscious commitment to help our daughter and make ourselves into a family. It was our daily work. We learned that parenting a child who has trouble bonding requires counter-intuitive parenting instincts – some that disturbed and surprised family and friends. (…) With the help of research and case studies, we had a tool box. Some advice was invaluable, some failed. Some techniques worked for a while. We were living inside a laboratory. I knew how lucky I was to have a partner like Ricky because so many marriages and homes are ravaged by the challenge of adopting difficult children.(…) She became more capable of showing anger rather than indifference. As her verbal skills developed, we had the advantage of being able to explain to her that we loved her and would never leave her. That we understood how scary it was for her to be loved by an adult and that she was safe.Progress took time – and the work of staying bonded with a wounded child is a life-time endeavor. That’s okay though because Julia has stepped out of the danger zone. She’s taken off her helmet and armor. She has let me become her mother. And I honor that trust by remembering, each and every day, how she struggles with subconscious demons and how mighty her battle is and will always be”.(aqui

Troquem ideias connosco, sentimo-nos sós. 


Cipreste

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

internet e informação não tratada

Bom dia, pais de filhos com smartphones, tablets e computadores,

Digam-me como lidam com o acesso ilimitado (não nos iludamos) dos vossos filhos ao mundo?
Falo de crianças com 10, 11, 12 anos que, não nos iludamos, mesmo que não tenham dispositivos destes, acedem a elas ora através dos amigos, ora simplesmente através dos computadores das escolas.

Os nossos filhos têm o mundo nas suas mãos e eu acho que não têm maturidade para lidar com a grande parte da informação que lhes chega através de um clique.

Ajudai-me a lidar com este facto, por favor.

Grata,
Cipreste

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O Grito

Cada pessoa pensa os seus assuntos como as urgências do mundo, eu sei. É urgente tratar a questão dos transgénicos e da eutanásia, é urgente o reconhecimento do direito à sexualidade das pessoas com deficiência e que todos aprendamos língua gestual, era urgente que se salvasse aquela espécie que foi declarada extinta o ano passado. O meu assunto também é urgente, porque os meus filhos estão a crescer. E estão a crescer tão depressa.

Em breve, a minha filha será adolescente. Sinto esta gravidez da adolescência com um temor maior que o do parto que nunca fiz. Dizem-me que não reconhecerei a minha filha. Mas eu quero reconhecer a minha filha. Sempre. Quero que ela se reconheça e não sei como fazê-lo. Passo dias e noites a tentar engendrar uma fórmula para solucionar este enigma, para lá do amor. E fico cheia de medo, com vontade de gritar.

O meu filho escreveu-me uma carta que é uma declaração de amor, lá pelo meio escondeu esta pergunta “mãe, eu confio em ti, por isso gostava de saber a tua opinião sobre mim”. Um dos seres mais maravilhosos que existem à face da terra, e não sabe disso. Como posso fazer para que saiba? Como o posso amar ainda mais? Quis gritar.

Saio de casa e chego ao mundo. Quero encurtar a distância, quero que a nossa casa seja o mundo. Mas não está a ser, a nossa casa está a ser um refúgio, um bunker. Entramos aqui, fechamos a porta e enroscamo-nos uns nos outros. Como se tivera sido ontem a retirada dos meus filhos aos seus progenitores e estejamos a consolá-los do que aconteceu ontem. E sinto esta bola, esta esfera na garganta. É o mundo todo dentro da minha voz.

Penso: será que estamos a dar um tom trágico ao desenvolvimento normal de uma criança? Decido que era isso. Descanso dois dias. Acontece algo impensável. Novo susto. Ficamos interrompidos novamente. Revemos actos e omissões a tentar analisar a origem do mal. Questionamos-nos: será isto uma interrupção? Às vezes, chegamos à conclusão de que não era - estávamos a sobrevalorizar um evento, outras vezes, dói tanto de ter a certeza de que é o resultado de se ser abandonado.

Demos o nome às coisas: os nossos filhos foram abandonados numa casa estranha cheia de estranhos.
Ninguém sai incólume disto.
Ninguém.


Quando o meu pai morreu eu estava lá. Vivi um momento major. Estive próxima da origem da vida.
Passado algum tempo, talvez um mês, fui à praia com eles. Fomos os quatro. Era Inverno. Éramos só nós. E o mar. E o vento. Gritei. Gritei de verdade, de dentro de mim. Gritei um adeus que tive pudor de gritar de madrugada no hospital.


Convidei-os a gritar. Mas eles não têm coragem, ainda. Mas eu queria tanto que eles conseguissem gritar.


Eles também perderam o pai. E a mãe. Se é que os chegaram a ter. mas receiam gritar. Os meus bichinhos receiam o que possa haver para lá do grito. E a minha missão é mostrar-lhes que o que existe para lá do grito não é mágico nem instantâneo, mas é libertador.





E eu, eu queria subir a um palanque e gritar ao mundo o bê-á-bá sobre o medo das pessoas abandonadas. Não é um medo igual ao meu, ao nosso. Mas isso é todo um outro assunto: como fazer “os outros” perceberem “isto” sem expor os meus filhos?

E é aqui que reside o motivo da minha ausência neste blog que tanta falta me tem feito: a privacidade da minha família.
Ando a tentar encontrar a fórmula para estar publicamente neste assunto que é não só privado, mas isso mesmo: público.

A adopção é um assunto de saúde pública. Saúde mental.

Como a língua gestual que todos deveríamos saber, a sociedade deveria estar sensível para estes assuntos da adopção e do abandono, para lá da lágrima fácil que estes assuntos induzem.
Um dia destes, hei-de encontrar um lugar seguro. Um lugar que me permita usar a minha voz em prol de pais e filhos - e restante sociedade. O meu contributo. Sem gritar.
Porque há aqui muitas falhas, e todos sabemos disso. Pois então, farei disto o meu activismo.
Em busca de novas auroras.

Bom dia a todos,
que o dia vos seja limpo,
Cipreste


sexta-feira, 24 de junho de 2016

até já

Após um interregno não planeado durante as férias da Páscoa, e com o regresso às aulas, as nossas rotinas escolares e laborais, assim como projectos extra e muito aliciantes, deixaram-me com menos tempo para escrever. O blog foi ficando à espera. Escrevi uns textos que ficaram em rascunho. Nuns dias não publiquei porque estava a trabalhar muito, noutros dias não publiquei porque simplesmente não me apetecia, noutros ainda não publiquei porque a vida offline me chamava para o divertimento ou para o amor (e às vezes para os problemas também). A vida foi acontecendo.

Comecei a repensar a vida online. Não sou daquelas pessoas muito resolvidas que nunca sentem necessidade de repensar posturas e eventualmente redirecionar-se.

Depois, tive um ou outro encontro com pessoas que nunca nos contactam e que abordaram os meus filhos como se convivessem diariamente com eles. Usaram informações que partilho no facebook (ou aqui, pois algumas pessoas não admitem ler o blog) com os miúdos. Fizeram passar uma imagem de proximidade que não existe na prática da vida do dia-a-dia, do bem-querer, do contar com. Ninharias de dia-a-dia. Ainda assim, arrepiei-me.

Acrescentei a isto o facto da Magnólia se aproximar da idade legal para poder abrir conta no facebook. Pensei: poderá ser-me desconfortável ver a minha filha partilhar disto online com aqueles que não lhe surgem nas alegrias e nas aflições da vida offline. Questionei-me: nesse caso, o que é que quero que a minha filha me veja partilhar (no caso de querer ser minha “amiga”) online? Afinal, faz o que eu digo, mas… e o que eu faço?
Fiz uma restrospectiva, pus muitas coisas em cima da balança.

Não esqueço o meu prazer em partilhar, nem a importância da entre-ajuda.
Uso muito tempo a pensar “como podemos partilhar as verdades entre nós, pais adoptivos” sem expor os nossos filhos? Porém, há aqui questões em que o anonimato não passa, não funciona.
Vou continuar a pensar muito nisto. Quero muito ajudar as pessoas que estejam a passar pelo que já passei, e também quero muito estar com outras que já passaram onde estou, que me ajudem a ver além das minhas angústias actuais.

Vou dar uma volta, offline.

O blog fica em estado vegetante, reverti os posts para rascunho.
Não estou zangada com a internet nem com os blogs. Gosto muito das redes sociais mas agora só uso o facebook, mais nada. Quer dizer, leio os blogs, só não uso o meu.

Saibam que estamos bem, muito bem :) Não compliquemos, é Verão.

Quando descobrir o registo mais confortável para poder continuar a partilhar o que possa ser importante para outros no mesmo caminho, cá virei dar notícias. Quem quiser ficar na lista das notícias pode enviar email a “inscrever-se”.

Para já, vamos a banhos.

Tudo de bom para vós
e... obrigada pelas partilhas,
Cipreste

quinta-feira, 31 de março de 2016

os nossos dias

têm sido assim



e eu a pensar que iria sentar-me horas e horas a escrever
hahaha
olá,
espero que estejam todos bem

beijinhos e até já,
Cipreste

sábado, 19 de março de 2016

ser pai

Conheci o Chaparro no aeroporto. Foi bonito, um acaso bonito pelas mãos de um amigo comum.
Essa história fica para outro dia, o que quero contar é que menos de 5 minutos após termo-nos conhecido já o Chaparro me estava a mostrar as fotografias do Freixo, com a carteira na mão. Cerca de 5 fotos, desde bebé até à idade actual, 6 anos.
Eu estava com 31 anos e ele com 30. Era Março do ano de 2005 e ninguém das nossas idades andava com fotografias dos filhos nas carteiras. Pensava eu.
Esta é uma coisa que o Chaparro faz: abrir a carteira e mostrar fotografias dos três filhos enquanto os seues olhos brilham.
Quando paro para perceber a sorte que tenho na vida, quedo-me muito na sorte que tive em conhecer o Chaparro. Acho mesmo que foi um golpe de sorte encontrar num tão grande amor o melhor pai que poderia imaginar para os meus filhos.
Esta aventura da parentalidade é maravilhosa não apenas pelos filhos que tenho mas por quem é o pai com quem caminho lado a lado nela.


Chaparro,
Ontem, os teus filhos estavam verdadeiramente ansiosos por conseguir transmitir, nas prendas que te fizeram, o quanto gostam de ti. O mai'novo disse: espero que o papá goste porque estes são os meus sentimentos.
E é isso, estes são os nossos sentimentos. Feliz dia do pai.




Aos pais, aos órfãos, aos que nunca souberam o que é ter um pai mas sabem que é ser pai, aos que perderam os filhos, um beijinho especial neste dia,

Cipreste


p.s. não levem a canção à letra... beautiful boyz

quinta-feira, 17 de março de 2016

a vida é bela e isto é um poema

Ontem, eu e o meu filho participámos no clube de leitura da sua turma.
Trata-se de um clube organizado pela sua professora e que teve duas sessões o ano passado e já vai na segunda deste ano. Sempre muito bem preparado, com vários meninos a fazer a apresentação, calhando a vez a todos. Muita alegria e entusiasmo dos meninos e participação da quase totalidade dos pais, sempre em dias de semana a horas em que muitas pessoas acabam por ter de sair mais cedo para poder comparecer.

Nós participamos sempre, na última sessão lemos "O Pássaro da Alma" em família, sendo que o Chaparro fez de pássaro da alma, o mais lindo que já vimos até hoje.

Ontem, a sessão era sobre poesia. Expliquei ao meu filho o exercício do Cadáver Esquisito e fizemos um.

Ei-lo aqui, para quem não conseguir ler a imagem:

Cadáver Esquisito

Hoje vim ler
O macaco não sabe ler
Antes disso é preciso escrever
Eu gosto de escrever
É na escola que esta história começa
A história é gira
Porque gostamos de rodopiar
Eu gosto do rodopiar da minha mamã
Que rima com "romã"
A romã é doce
Ou amargo, o poema não tem de rimar
Rimar é divertido
Afinal para que serve sabermos rir?
Rir é amoroso
Pois sem amor nada somos
Nós somos divertidos
Alegres ou tristes, tudo faz parte da vida

A vida é bela
E isto é um poema.



Ele escreveu a verde e eu a vermelho. Não seguimos religiosamente as regras dos surrealistas. Escrevemos sempre partilhando a última palavra do nosso verso e virávamos a folha por essa linha "para não vermos". Foi uma bela e emocionante surpresa desdobrar a folha e ler o poema pela primeira vez.

Lemos o poema no final da sessão do clube de leitura e falámos aos meninos sobre como foi escrito, ainda abordámos a questão se a poesia será mesmo para comer (como disse a Natália Correia) e partilhámos uma parte da história da nossa família: o pai e a mãe do Chaparrito conheceram-se por causa da poesia. Foi o "uuuu" geral de olhos arregalados quando partilhei este segredo em voz de sussurro com eles.

Ontem foi um dia cheio de tantas coisas, coisas boas e menos boas, coisas chatas e coisas não-chatas

"a vida é bela
e isto é um poema"

Bom dia a todos,
Cipreste

quarta-feira, 16 de março de 2016

mal-entendidos e a sensação de coito-interrompido

Quando estamos assoberbados de afazeres. Quando temos o cuidado de só assumir os compromissos que temos certeza de poder cumprir, para não falhar com ninguém. Quando temos um emprego e dois filhos e uma espécie de segundo emprego e nas últimas 3 semanas temos estado todos engripados à vez (daquela gripe que não nos faz aterrar mas também não nos deixa andar com a energia bem regulada). Quando temos relações que são muito frágeis e dessas relações sai um pedido de uma tarefa e nós dizemos “ok, mas por favor, esta semana não, só na próxima, ok? Para eu não falhar». Quando planeamos fazê-lo no terceiro dia da semana em que prometemos que iríamos tratar desse assunto e recebemos um telefonema e respondemos logo e bem dispostos «hoje vou tratar disso!”. Mas sai, sem estarmos à espera, uma rabecada velada em como não cumprimos a nossa promessa (aquela que fizemos questão de dizer que só esta semana podíamos despachar). E depois ligamos à segunda entidade a contar que isto se resolve, este mal entendido de que eu não tive boa vontade e que não tirei aquele bocadinho que podia ter tirado porque uma pessoa consegue sempre um bocadinho, basta orgnizar-se – afinal, se postamos no facebook é porque temos todo o tempo do mundo, oiço nas entrelinhas. E dizem-se muitas coisas, com muito cuidado para não desencadear um incidente diplomático. Mas, claro, não falta a alusão de que “não se me (a mim, Cipreste) pode dizer nada porque amofino logo, ou assim”. E dizem-se mais umas coisas com muito cuidado, trato eu disso, não,deixa, trato eu. Acabo por conseguir mostrar que tenho vontade sincera de participar na coisa e de tratar o assunto, porque sei que também é minha obrigação. Porque é. E, no meio disto tudo, o recurso a um bocadinho de chantagem emocional, para a coisa ficar completa.

E acabam ambos os telefonemas sem que eu tivesse oportunidade de poder dizer a ambas entidades que estava muito entusiasmada e queria mesmo era avançar com outro assunto: a proposta de passarmos uns dias das férias da Páscoa todos juntos.

Pois :(

Boa tarde,
Cipreste

nesta pequena aldeia

Ando muito atarefada com um novo e muito aliciante projecto que nada tem a ver com a maternidade nem com a minha profissão, é uma coisa da minha vida dupla e que me faz sentir muito eu, muito a Cipreste ela própria e isso é tão bom, tão revigorante.

Adiante.

Venho dar espreitadas aos blogs dos meus vizinhos e hoje senti o meu coração quentinho.

A Olívia escreveu uma carta à mãe de coração e eu senti-me ali, dentro daquele círculo. Sei que não fui chamada para a conversa, não tinha de ser. Sabemos que fazemos parte de uma comunidade quando nos sentimos parte daquele grupo de pessoas. Senti-me parte de um voto de compreensão e entre-ajuda, para lá das diferenças que são naturais entre as pessoas.

Li a carta e senti-me ao lado da Olívia a dizer à mãe de coração «Estamos aqui, um por todos e todos por um».

Somos poucos*, ou eu é que não os encontro, nesta blogosfera dos pais através da adopção, mas a sensação de comunidade começa a estar lá para mim. A sensação de viver numa pequena aldeia.

It takes a village, diz uma expressão popular em língua inglesa, omitindo o final da frase, pois está lá implícita... to raise a child.

É necessária uma aldeia para criar uma criança.
E garanto-vos que neste mundo da adopção isso se sente de forma muito intensa.
encontrei esta imagem num blog, sem refª ao autor
diz a imagem que a expressão é de origem africana...

Hoje inauguro esta etiqueta - It takes a village, em honra desta pequena comunidade amiga de que me vou sentindo parte.

Bom dia, vizinhos,
Cipreste

* um dia destes vou fazer um apelo à reunião de todos os links da adopção, portugueses, que conheçamos

domingo, 13 de março de 2016

para começarem o domingo com a magia da infância

o Chaparrito informou-nos que afinal já não quer ser bombeiro (como o bombeiro Sam), agora quer ser cavaleiro andante, como o D. Quixote, e sublinhou que também quer ser apelidado de "cavaleiro da triste figura"

olhou para o marcador do meu livro, em cima da mesa, e exclamou "que elefante tão lindo!"


é isto, senhores
não se aguenta, pois não? :)
Bom domingo,
Cipreste

terça-feira, 8 de março de 2016

Exercício


1. Lê a seguinte lista de violações dos direitos humanos e depois responde às questões:

- violação sexual
- mutilação genital
- casamento infantil
- tráfico humano
- escravidão
- escravidão sexual
- repressão
- violência doméstica
- desigualdade no acesso à vida em sociedade (por ex, no direito ao voto e o acesso a cargos de liderança)
- desigualdade no mercado de trabalho (por ex, nas oportunidades de liderança e nas remunerações)

1.1. Tens conhecimento de que haja um grupo de "pessoas que se distingue de outro grupo de pessoas" que é mais atingido por estas violações do que o outro grupo de pessoas?

1.2. Tens conhecimento de que haja tendência para que seja habitualmente um grupo de "pessoas que se distingue de outro grupo de pessoas" que mais perpetua estas violações ao outro grupo de pessoas?

1.3. Tens conhecimento de que estas violações ainda acontecem diariamente, em pleno século XXI, pelo mundo fora?

Se respondeste “sim” a tudo, é provável que concordes que talvez (só talvez) seja bom dinamizar todo o tipo possível de acções para a sensibilização de que no século XXI ainda exista este tipo disparidades, nomeadamente o assinalar de dias específicos.

Cipreste

segunda-feira, 7 de março de 2016

But I believe in love

Não é para deprimir ninguém :) é só porque sim, chamemos-lhe "banda sonora para este fim de tarde".

a nova era

O que mais marca isto de se viver numa nova era é a ambivalência de cada momento. Niemeyer esteve muito bem quando disse que a vida é rir e chorar a vida inteira. Já sabíamos?  Pois já, mas ele é que o disse dessa forma bela e simples (haverá forma de se dizer belo sem ser simples?).
Repito isto tantas vezes, com este ritmo de respiração, por vezes arrogando-me na linguagem da Maria Gabriela Llansol:

a vida___________ é
rir
e chorar
a vida inteira______________________

Tenho andado muito atarefada com o luto do meu pai porque me tem doído muito. Tanto. Mas tanto que às vezes parece que, mais do que as pálpebras de chorar (que não choro), são as mãos que me doem.

Há dias, disse à minha psicóloga que me sinto nesta nova era como quem acabou de fazer uma mudança de casa.

Vejo-me sentada no chão de uma sala com os livros todos desempacotados (já estão desempacotados, ao menos isso). Estou sentada no meio dos livros, em pilhas maiores ou menores, no chão. Estou naquele momento em que olho à volta e ainda não percebi como os vou dispôr, como os vou dividir. Aliás, há alguns livros que já nem me lembrava de ter, ou talvez que até nunca tenha aberto. Está aqui tudo, só não foi tudo usado e agora tem de ser minimamente organizado.

Consegui perceber já uma coisa que me faz compreender muito bem o estado de constante inconformidade da minha mãe. A partir de agora, grande parte (senão todos?) dos momentos de felicidade serão acompanhados de tristeza.
Senti-o há bocado. Arrumei esta ideia à hora de almoço ao ver o Chaparrito tão feliz a dar uma volta naqueles comboios de moedinha, feliz por ter ido excepcionalmente almoçar com os pais ao centro comercial, ainda por cima num dia de aulas. Senti alegria pela alegria do meu filho, senti tristeza imensa por não ter cá o meu pai para vivermos esta alegria todos juntos.


Como é possível que se tenha perdido esta pessoa? A minha mãe tem razão quando resiste. Eu compreendo-a. E não vivi 50 anos com ele.


Hoje, os meus pensamentos estão mais com a minha mãe do que com ele. Deve ser isto aquela coisa do cuidar dos vivos.
Vou ligar à minha mãe. De novo, já nos falámos hoje.













Boa tarde a todos, desejos de boa semana,
Cipreste